segunda-feira, 15 de julho de 2024

As mortes do professor

É bastante provável que o professor morra em sala de aula, em pleno exercício da profissão, despido de toda humana dignidade. Senão a sala em sua forma asfixiante ela mesma o mate.  Não é mais inverossímil dizer que talvez o seu assassínio venha pelas mãos de um estudante. Por certo morrerá definhando o professor dentro do professor, até que dentro e fora já não mais se distinguam.  

terça-feira, 2 de julho de 2024

A loucura de cada um

A sanidade é um delírio. É natural do pensamento racional querer organizar, separar, normalizar tudo. Tenta-se por diversos meios. O fracasso é a regra geral. Pois vive-se entre um e outro, a sanidade e a insanidade. É uma condição inescapável. A loucura de cada ser humano constitui seu caráter. Se ela será tolerável para nós é só uma possibilidade. Mas é, certamente, o que dá a cada um de nós uma identidade singular, única.

domingo, 16 de junho de 2024

Sujeito exíguo

 O Sr. é artista? Que obras criou?

Minha obra é exígua.

E também é poeta. O que publicou?

Minha publicação é exígua.

Escritor, de quais contos e romances?

Tudo bastante exíguo.

Em que trabalha? É professor.

O trabalho é abundante!

E o salário?

Exíguo!

Por outro lado, gasto em abundância.

Sente fome?

Minha fome é enorme!

Mas minha capacidade de satisfazê-la é exígua. 

Sobre a roupa

O impacto que a roupa no corpo de alguém tem sobre as pessoas é inevitável. Não penso na roupa como moda estabelecida por um sistema industrial criando uma uniformidade estéril. Penso na roupa como indumentária do corpo, segunda pele. O impacto é tanto maior quanto for a harmonia do corpo com o que lhe veste. E não é no sentido de acentuar sua forma, mas de lhe dar uma nova forma cuja a roupa e corpo tornam-se uma coisa só.

O Universo

Minha concepção pessoal de Universo é que ele é finito, se torcendo sobre si mesmo a maneira de uma fita de Möbius, a finitude do Universo está em sua fronteira, mas o caminho é infinito. 

quinta-feira, 2 de maio de 2024

O ateísmo como fé

Não sendo possível para a ciência provar a existência de Deus, sua inexistência é igualmente impossível de refutar. De modo que o ateísmo só pode se basear em uma fé. Devoção na negação. Uma religião sem igreja.

sexta-feira, 5 de abril de 2024

O que o dinheiro não compra

O dinheiro compra tudo? Ele compra uma biblioteca, mas não compra a sabedoria, nem mesmo é capaz de comprar a estupidez humana. Tampouco é necessário, a estupidez é de graça, abundante e inesgotável. 

domingo, 28 de janeiro de 2024

O triplo dilema da propriedade

O triplo dilema da propriedade consiste em ter para que os outros não tenham; ter como os outros e ter com os outros. Qual seja, ao fim e ao cabo tudo se reduz a transitoriedade inerente da posse. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Do verme ao parasita

Machado de Assis é o primeiro que propõe  a especialização do verme para o parasita. Verme somos todos - assim sustentava a lógica  darwinista. Mas diante dessa vérmina é necessário indicar os parasitas. Foi exatamente o que o bruxo do Cosme Velho fez ao descrever os vermes parasitas, diagnosticando uma espécie de parasitose social, um problema de saúde coletiva ( já que ele se refere a um grupo) e pública (os funcionários públicos), especializando os vermes, (des)classificando-os. Não é estético o juízo que se deve ter do verme (visto que sua aparência é diversa), mas da sua função no tecido social.

O sentido do verme está ligado a forma (vermiforma). Tanto que vermilingue é termo usado pela zoologia para classificar mamíferos de língua comprida e cilíndrica, à semelhança do verme. Parasita é o sentido do verme que se desloca da sua forma para a sua função, dando a melhor conhecê-lo pelo nome.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Sobrenatural e ciência

Sigmund Freud interpreta os sonhos sobre o pressuposto de que existia um período pré-científico em que os sonhos eram interpretados como manifestações místicas, sobrenaturais. Guardado o que sabemos ser próprio e mesmo devido ao tempo histórico do autor, não se pode chamar de “período” o que é uma categoria de pensamento que sempre esteve presente na cultura. Também não chamaria de pré-científico pela mesma razão. A ciência é tão antiga quanto o pensamento racional e lógico manifestado na mente humana pela primeira vez. O pensamento científico não é, portanto, um advento — Freud deve ter se referido ao pensamento científico moderno. Ele ainda pertence a época de uma fé romântica na ciência, chamando de instruídos os que entendem o sonho como uma ato psíquico de quem sonha, como se não houvesse instrução em uma interpretação sobrenatural. O sonho como manifestação mística é algo que não se pode sistematizar em um método. Pois é a verdade revelada apenas para quem sonha, já que é para ele que o sobrenatural se manifesta. Nesse sentido é interpretação não universal, o que a separa da ciência. A verdade da experiência místico é absoluta e revelada sem pesquisa.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Sobre a propriedade privada

É notável que a propriedade privada ganhou tanto valor na sociedade moderna que seu direito foi incluído no rol dos direitos humanos acabando por naturalizá-lo à partir de concepções filosóficas a-históricas e a-culturais, desconsiderando os mais relevantes estudos antropológicos que demonstraram que em diversas sociedades humanas a propriedade privada não existe. 

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Mudança

As coisas que tenho no meu lar dão forma singular para o espaço. Sem elas é só o geometrismo frio de um apartamento padrão. A gente vai guardando tudo e tudo fica encaixotado pra levar com a gente e abrir em momento oportuno. Enquanto quebram algumas coisas, outras tantas aparecem e se descobre quanta coisa de nada mais nos servem. Todo dia é uma despedida vai ficando um saudosismo de uma vida que passou por ali e que vai ficando esquecida. Até que, enfim, o novo! A nova morada, algumas coisas iguais, a mesma vida...


sexta-feira, 20 de outubro de 2023

A sombra

No jogo da linguagem de E. A. Poe, o par de opositores "definido" e o "indefinido", carregam o sentido de "substância" e de "sombra", respectivamente. A sombra como fenômeno natural é produzida pela luz ao ter seu espectro de incidência interrompido por um objeto ou ser (substância) que, ao torná-lo visível, claro, produz sua sombra - o negativo desse objeto ou ser projetado em um meio. Como projeção, a sombra necessita desse meio para ser projetada. Precisa também de uma fonte de luz. A silhueta da sombra são os contornos da realidade. Naquilo que a sombra esconde, se revela. Por isso, nunca é ausência. A sombra se projeta contornada por uma aura de luz. Se a sombra existe, então existe luz. Não há sombra sem luz. A luz, por sua vez - é claro! -, independe da sombra para existir.  Dito de outro modo, a luz existe sem a sombra, contudo a sombra não existe sem a luz. A dúvida sobrenatural é se a sombra pode se manifestar como substância.